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INFANTV
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Mário Monjardim, você
começou em rádio-novelas. Como aconteceu esse início?
MÁRIO MONJARDIM
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Bom, tudo começou por acaso. Há
exatamente 50 anos, em 1954, eu fui ao dentista. E quando lá cheguei,
pra espanto meu, não existia mais o consultório. Uma mocinha bonita, muito
atenciosa me atendeu:
– O que é isso aqui. Não é o consultório do Dr. Vitor?
–
perguntei.
–
Não.
– me respondeu a jovem
– Aqui é o escritório da Rádio Vitória.
Aí eu resolvi levar um papo com a menina:
– Que está fazendo aqui?
– Estou recebendo inscrições para o concurso de rádio ator.
E eu caipirão ainda:
– Que diabo é isso?
– Rádio ator. Pra fazer novela de rádio. Não sabe o que é, não?
– Nunca ouvi falar
– eu respondi.
Como eu disse a moça era muito bonita aí resolvi me insinuar:
– E isso é bom?
– Bom, se você tiver jeito pra coisa...
– E o que é que eu preciso fazer pra me inscrever?
– Basta dar seu nome e endereço que a rádio vai chamar você.
– Então me inscreve aí que eu vou fazer esse negócio.
Eu estava mais era a fim da menina. Lá eu sabia o que era novela! E nem
queria saber. Alguns dias depois não é que me chamaram mesmo!
Na verdade chamaram o meu pai, que também se chama Mario. O pessoal da
repartição dele fez a maior gozação:
– Oh, Mario, depois de velho você se metendo nesse negócio de rádio?
Aí ele
viu que só podia ser coisa minha, me comunicou.
E lá fui eu. Fiz o teste. O José Américo, o diretor, me aprovou, e aí foi
como tudo começou. Em 1958 o José Américo, que a essa altura já estava na
Radio Nacional, me trouxe pra cá. E na Nacional fiquei até 1965.
ITV
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Depois veio o trabalho na televisão?
MM
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A Tv Globo ia ser inaugurada, estavam abrindo testes para ator e eu
resolvi me inscrever. Fiz os testes. O Graça Melo, que era o diretor, gostou
e me contratou. E assim fomos uns dos primeiros contratados da Tv Globo. Eu,
Milton Gonçalves, Gracindo Jr., Pietro Mário, Claudia Martins, pra citar
apenas os que continuam meus amigos até hoje, além dos já falecidos. Fiquei
pouco tempo na Globo. Me indispus com uma senhora muito famosa, que pra mim
não tem talento algum pois tudo que faz é sempre ela, só muda a roupa. Como
ela tinha muito prestígio, no fim do contrato me dispensaram. Mas depois
disso eu andei fazendo alguma coisa na emissora: Carga Pesada, Chico Anísio,
Os Trapalhões...
ITV
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Essa trajetória na televisão ajudou no seu amadurecimento como ator?
MM
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Antes de mais nada não me considero maduro. O trabalho de ator é
sempre um aprendizado. Estamos sempre aprendendo com a certeza de que ainda
temos muito a aprender.
ITV
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Como você ingressou na dublagem?
MM
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Ingressei na dublagem praticamente quando ela começou trazida pelo
espanhol Carlos de la Riva, e a italiana Carla Civelli no filme Maverick.
ITV
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Que
personagem você fazia?
MM
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Quanto ao papel não me lembro. Mas com certeza deve ter sido o Homem
1. Aquele que entra pra entregar um telegrama e vai embora.
ITV
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O Salsicha é sem dúvida um dos seus mais marcantes trabalhos. Como esse
personagem entrou na sua vida?
MM
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Foi através de teste. Realmente o Salsicha me dá muito prazer em
dublar. Não sei se é porque eu sou caipira que eu me identifico com tipos
assim.
ITV
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É, ele em nossa dublagem tem esse toque caipira que você falou e um
jeitão bem brasileiro, você colocou muito do seu jeito no personagem?
MM
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É, realmente eu faço o Salsicha com uma mistura de caipira e
nordestino. Parece que a mistura deu certo. Apesar de já ter sido criticado
por um crítico de cinema. O cara acha bonito o sotaque do Texas mas detesta
o do nosso nordeste.
ITV
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Quando o Salsicha veio para os cinemas através do Matthew Lillard, também
escolheram você para dublá-lo, você acha que sua voz combinou com o ator
Lillard?
MM
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Quando me chamaram para dublar o garoto no longa-metragem pra cinema
eu fiquei meio incomodado. Um velho de setenta anos dublando um garoto. Mas
aí eu percebi que eu estava dublando, não o garoto, mas o mesmo ator que eu
dublo há trinta anos. Lá também mantiveram a mesma voz. Aí então eu me senti
mais confortável.
ITV
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O Pernalonga também é outro destaque em sua carreira. Recentemente a
Warner fez várias trocas e você perdeu o personagem. Por que isso aconteceu?
MM
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A Warner costuma de tempos em tempos reciclar os seus personagens.
Isso já aconteceu várias vezes. Confesso que eu já não estava me sentindo
muito à vontade no Pernalonga. E esse sentimento crescia na medida em que eu
ouvia a mensagem que meu filho me obrigou a gravar pra ele no seu celular. O
Pernalonga é tirado da garganta. E depois de trinta anos está claro que a
nossa voz não é a mesma. Com o Salsicha é diferente pois a voz eu tiro da
cabeça, não me cansa. Portanto não senti ter sido substituído pelo Alexandre
Moreno. Ele está fazendo muito bem. As próximas gerações não sentirão a
minha falta.
ITV
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O Festus, da série
Gunsmoke
também é outra figura caipira muito bem dublada por você, como você
conseguiu esse personagem?
MM
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Ah! Doce Festus! Esse foi o personagem que mais prazer me deu em fazer.
Quando íamos dublar o
Gunsmoke
era uma festa. Todo mundo se divertia muito. Era o caipirão. Era fácil. Eu
sou caipira, portanto.
Naquela época estávamos numa merda que
fazia gosto. Eu, Fiori, Patiño e Ribeiro Santos éramos os quatro cavaleiros
do apocalipse. Quando surgiu o filme para teste dos quatro, o que estava em
melhor situação era eu, pois já tinha papeis fixos em outras séries. O
Waldir Fiori era quem estava em pior situação. Então eu falei pra ele: "Olha
eu vou fazer um teste bem avacalhado pra não passar e aí você capricha.
Vai dar você". Naquela época os nossos tipos eram muito parecidos. Aliás até
hoje. Resultado: o distribuidor, não me lembro se era a Warner, me escolheu.
Achou que era aquilo que eles queriam. E acabou fazendo um sucesso
extraordinário. Até hoje, os mais velhos ainda se lembram do Festus do
Gunsmoke.
ITV
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Como podemos notar você usa em alguns personagens “cacos” que identificam
o seu trabalho. Isso já lhe trouxe algum tipo de problema?
MM
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Os cacos fazem parte do molho que colocamos nos personagens para
torná-los brasileiros. Ou pelo menos mais identificáveis com o nosso
público. Não, nunca tive qualquer problema por causa de cacos. Pelo
contrário, eles me dão muito prazer pois todos os meus colegas se divertem
com eles. E agora estou vendo que não são só os colegas que se divertem.
Consegui passar para o público também.
ITV
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Seus trabalhos quase sempre estão ligados ao humor como Gene Wilder,
Jerry Lewis ou o próprio Salsicha. Você se especializou nesse tipo de
dublagem?
MM
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É, eu me sinto mais à vontade dublando comediantes. Costumo fugir de
atores sérios. O que me deixou meio sem jeito dublando o Jerry Lewis agora
velho bonachão e sério e mafioso.
ITV
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Esses trabalhos mais ligados ao humor e aos desenhos animados têm
colocado você mais diretamente com o público infanto-juvenil. Você se dá
conta da responsabilidade do que está passando?
MM
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Realmente trabalhar pra criança é muito mais gostoso. Adulto pode ser
falso. Quantas vezes você já ouviu, principalmente no fim de um espetáculo
para o qual você foi convidado, portanto não pagou, “puxa, genial. Lindo,
lindo!”. E lá adiante, “tava uma merda!”. Criança não. Se ela demonstra que
gosta é porque gostou mesmo. Ou então diz na cara da gente que tava uma
porcaria. E se eu consigo passar, com o meu trabalho, alguma coisa boa pra
criança eu fico feliz.
ITV
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Entre os atores dublados por você teve algum que foi mais difícil?
MM
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Difícil, mas gostoso de fazer, foi dublar o Jack Lemmon em A Corrida
do Século com o Peter Falk.
ITV
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O que é mais difícil pra você, dublar atores de verdade ou desenhos
animados?
MM
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Pra mim é indiferente. Gosto de dublar bons papéis. Tanto desenhos
como atores. O diabo é que como eu dirijo mais do que atuo, dificilmente sou
chamado para dublar. E eu não gosto de me dirigir.
ITV
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Se você tivesse que
apontar algum momento que marcou sua carreira, qual seria?
MM
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No auge do sucesso
da série
Gunsmoke
o Ken Curtis, o
ator que fazia o Festus, foi entrevistado pelo José Roberto Paes Leme. Me
chamaram então para fazer a tradução simultânea, ou seja, em "voz over".
Entrariam com a voz do Ken e eu sobre a voz dele entrava com o texto em
português. Era uma entrevista de mais ou menos uns dez minutos. Você deve
saber que a dublagem é feita de "takes" de vinte segundos, chamados até hoje
de "loops", embora de "loops" só exista a saudade. Muito bem. Então eu falei pro
americano que dirigia a dublagem que eu era dublador e ator. Ele disse: "Não,
não pode porque não vai haver corte. Tem que ser direto e a dublagem vai
complicar. Não podemos parar, senão tem que começar tudo de novo". Aí eu
respondi: "Está bem. Se tem que ser assim". Aí eu fui ao técnico, que
era meu
amigo, pedi que ele gravasse pra mim a entrevista em fita cassete e me
emprestasse o texto pra levar pra casa. Cara, foi um trabalhão dos diabos!
Mas eu aceitei o desafio, que não era de ninguém, mas de mim mesmo. Marquei
pausa por pausa. Eu já dublava o Festus há muito tempo, conhecia até onde
ele respirava. Pra você ter uma idéia, o tradutor da série quando traduzia,
escrevia "Festus fala". E pronto eu tinha que me virar. Pois bem, no dia da
gravação eu entrei no estúdio, já antecipadamente combinado com o técnico, e
mandei soltar a entrevista. O americano lá lendo o texto conferindo. E eu na
moita, gravando. Disseram e eu mandei ver: "Pa pa pa pa pa". O Zé Roberto
fazia a pergunta, o operador baixava o áudio e aí eu entrava. E assim foram
os dez minutos. O Ken Curtis era um galã. Começou a carreira como crooner da
orquestra do Tommy Dorsey e a voz era de galã. Naquela época a minha voz
não era essa merda de hoje não. A voz de caipira que ele criou foi inspirada
num tipo que ele conheceu quando o pai dele era delegado de uma cidadezinha
lá do Texas. Isso está na gravação. Nem deve existir mais. O americano ficou
doido. Lá na terra dele não existe isso não. Aqui qualquer dublador que
queira fazer isso que eu fiz faz. Porque brasileiro é o melhor do mundo. E
isso é em todos os sentidos. Veja uma peça teatral qualquer por exemplo.
Quanto tempo, quantos meses eles ensaiam lá fora? Aqui com algumas semanas o
espetáculo está pronto. O estrangeiro fica de queixo caído com a gente.
ITV
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E caso engraçado? Tem algum de alguém ter conhecido você por sua voz?
MM
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Ah, Tem! Um dia num supermercado - aliás isso aconteceu duas vezes -
na hora de pagar eu vi que a caixa olhava pra colega do lado e ria muito. Eu
já estava meio chateado com a cena e perguntei: "O que é? Estão rindo de
que?" E a moça: "É que o senhor tem voz de desenho animado". Isso me deixou
envaidecido. O público nos reconhece portanto não somos anônimos.
ITV
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Como o meio de dublagem vê atores de Tv fazendo dublagens rápidas para o
cinema?
MM
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Nos Estados Unidos também fazem isso. Não tenho nada contra. Aliás,
tenho sim. Deveríamos ganhar pelo menos a metade do que eles ganham.
ITV
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Qual a sua opinião a respeito da Tv a cabo no Brasil, que traz tantos
enlatados e os exibe com legendas?
MM
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É uma falta de vergonha. Deveriam respeitar mais o idioma nacional.
ITV
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Você defende que os programas dublados no Brasil deveriam ter créditos
finais para os dubladores?
MM
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É, seria bom. Não custaria muito e faria justiça a esses profissionais tão
injustiçados.
ITV
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Mário Monjardim, muito obrigado por sua entrevista, gostaria que você
deixasse uma mensagem aos visitantes do InfanTv.
MM
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A única mensagem que me ocorre no momento é que eu gostaria que o
público prestigiasse mais os filmes dublados, porque é a nossa língua que
está ali. Para tanto, estamos, tanto empresários como profissionais da
dublagem, tentando melhorar cada vez mais a qualidade do nosso trabalho. E
para encerrar quero agradecer, do fundo do meu coração, a oportunidade que
vocês me deram de me dirigir ao público internauta.
entrevista realizada por Izaías Correia
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